O câncer de cabeça e pescoço se manifesta, geralmente, entre tabagistas e etilistas, grande parte proveniente de classes socioeconômicas menos favorecidas. A falta de informação, nesses casos, impede o tratamento precoce.

 

No Brasil, 70% dos pacientes diagnosticados com câncer de cabeça e pescoço já estão em um estágio avançado da doença. Trata-se de um indício claro de falta de informação, ainda mais quando se leva em conta os principais fatores de risco para esses tumores: o cigarro, o álcool e o sexo oral sem proteção. Além da falta de informação pela população, a dificuldade de acesso ao sistema de saúde e desconhecimento destas patologias por alguns profissionais de saúde que em muitas vezes são os primeiros a ter contato e avaliar estes pacientes, corroboram para esta triste estatística.

Por que há tanta desinformação em relação ao câncer de cabeça e pescoço?

Historicamente o câncer de cabeça e pescoço era mais frequente em pessoas de classes socioeconômicas menos favorecidas, com limitações ao acesso e entendimento das informações relativas aos cuidados com a saúde. Além disso, patologias que prevalecem nesta classe socioeconômica geralmente não são atrativos para a grande mídia. Na maioria das vezes, ele ocorre em alcoolistas e tabagistas pesados. Grande parte dessas pessoas fazem parte de um perfil social que as impede de ter um melhor acesso à saúde. Isto resulta nesta triste proporção: 70% dos tumores são diagnosticados em fases avançadas.

Porém, nos últimos anos, temos visto um aumento significativo em pessoas de classes socioeconômicas mais favorecidas, e muitos casos relacionados a infecção pelo HPV, que na maioria dos casos é proveniente do contato com o vírus a partir do sexo oral desprotegido, prática mais comum em grandes centros urbanos e em várias classes sociais. A ocorrência desta patologia em pessoas mais conhecidas do grande público, também têm contribuído para uma maior divulgação deste grupo de neoplasias, e espera-se que em um futuro próximo, este panorama posa mudar.

O tumor se manifesta em quais regiões da cabeça e do pescoço?

Quando usamos o termo “câncer de cabeça e pescoço” falamos dos tumores que atacam a cavidade oral (língua, assoalho da boca, gengivas, mucosa da boca), a laringe (cordas vocais) e a faringe, incluindo seus três subsitios principais: nasofaringe, orofaringe (amigdalas, palato mole e base de lingua) e a hipofaringe. Também podemos incluir os tumores da tireoide e das glândulas salivares, que serão tratados de formas diferentes.

Existem sintomas particulares para esse câncer?

Sim. Por exemplo, quando o tumor atinge as cordas vocais, pode causar rouquidão persistente e progressiva. Caso seja na parte mais alta da laringe (acima das cordas vocais), pode causar dificuldade de engolir ou dor para engolir. Caso o câncer atinja a boca, o paciente pode desenvolver uma ferida que não cicatriza, dor e sangramentos.

Álcool, tabagismo e HPV são fatores  de risco para vários tipos de câncer. Como esses vícios atuam nesse caso específico?

O tabagismo atua, principalmente, causando um defeito no DNA da célula. O álcool, sozinho, pode causar o câncer de boca. Há pesquisas que comprovam essa relação. Juntos, eles se potencializam: são muito piores juntos. Outro fator de risco importante para a doença é o HPV, que está associado à maioria dos tumores da região da orofaringe.

Diante do fato que o HPV é um dos  fatores de risco, a vacinação se torna uma arma potencial para a redução da incidiencia destas neoplasias. E a vacina não protege apenas do câncer de cabeça e pescoço, mas de outros, como o do colo do útero e o de pênis. Não há como ter receio de proteger seus filhos de uma doença grave, que pode até matar. A vacina foi criada para dar maior proteção. Todas as crianças, a partir dos 9 anos, precisam ser vacinadas.

Há tratamentos específicos para o câncer de cabeça e pescoço? E quais são as chances de cura?

Quando pensamos no tratamento, levamos em consideração alguns fatores: onde a doença se instalou, a idade e as condições clínicas do paciente e o estágio do câncer. Em um estágio inicial, sugerimos radioterapia ou cirurgia, com uma taxa de cura acima de 80%. No caso de uma doença avançada, tentamos usar mais armas para tratar, fazendo tanto a cirurgia como a radioterapia, mas geralmente o tratamento é baseado na associação de ambas as modalidades, muitas vezes também associado a quimioterapia.

Dados apontam que pacientes de câncer de cabeça e pescoço sofrem mais de depressão que outros doentes. Por quê?

Em muitos casos, tanto a doença como o tratamento, acarretam sequelas importantes, com impacto negativo na aparência dos indivíduos, assim como em funções importantes relacionadas a alimentação e comunicação, com impacto direto no convívio social e na qualidade de vida dos pacientes. Os tratamentos são muito agressivos e, muitas vezes, as cirurgias são mutilantes; alguns pacientes precisam fazer traqueostomia. O perfil social do paciente também complica a situação, já que muitos deles não contam com apoio pelas famílias e perdem seu emprego. Por isso, o paciente deve ser abordado por uma equipe multidisciplinar. Não só médica, mas com psicólogo, assistente social, dentista, fonoaudiólogo e fisioterapeuta.

Além de cortar o álcool e o cigarro, quais são outras formas de prevenir esse câncer?

Principalmente, com alimentação saudável, rica em verduras e frutas, mantendo o cuidado com a higiene da boca, procurando o dentista. Também lembrar de sempre fazer sexo com segurança.

Mesmo com toda a prevenção, há riscos de que tenhamos algum tipo de câncer?

A maioria dos tumores podem ser evitados com prevenção primária, ou seja, não fume, não beba, evite o sol, tenha uma alimentação adequada e pratique atividade física. Porém, caso ele surja, é preciso fazer a prevenção secundária: vá ao médico regularmente, faça exames periódicos e nunca deixe de procurar um especialista caso perceba algo diferente. Isso pode garantir mais chances de cura.

Fique atento:
Caso você tenha esses sintomas por até três semanas, procure o especialista imediatamente.

  • Feridas na língua/boca que não cicatrizam espontaneamente;
  • Manchas vermelhas ou brancas persistentes na boca;
  • Dor na garganta persistente, não associada a algum quadro infeccioso;
  • Rouquidão persistente;
  • Dor ao engolir ou engasgos frequentes;
  • Nódulo no pescoço, principalmente quando endurecidos e com aumento progressivo;
  • Nariz entupido de um lado e/ou descarga sangrenta do nariz, principalmente se apenas de um lado.