No artigo anterior, abordamos as características da tireoide e alguns problemas que podem ocorrer quando esta glândula não trabalha corretamente.

Um desses problemas é o câncer na tireoide. Sobre esta doença, entraremos com mais detalhes sobre os tipos de câncer na tireoide, diagnóstico/detecção e tratamento.

Fatores de risco, Sinais e Sintomas

O câncer de tireoide foi um dos cânceres com menor incidência no mundo, correspondendo a cerca de 1% dos casos de câncer. Porém, nos últimos 20 anos, a incidência desta neoplasia aumentou consideravelmente, quase triplicando sua incidência em grande parte do mundo ocidental.

Com este aumento na sua incidência, atualmente no Brasil, o câncer de tireóide é o quinto tipo de câncer mais frequente nas mulheres. Estima-se para 2014 cerca de 1.150 novos casos de câncer de tireoide em homens e de 8.050 nas mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer – INCA.

  • Foi percebido que o câncer de tireoide se desenvolve aproximadamente três vezes mais em mulheres do que em homens, e é normalmente diagnosticado na faixa de idade que vai dos 30 aos 50 anos.
  • O histórico familiar de câncer de tireoide (alguém da família que já tenha sofrido disso) é um fator muito grande de risco.
  • Exposição à radiação ionizante – principalmente em pessoas que já foram submetidas na infância a uma radioterapia na cabeça, no pescoço ou no tórax – é considerado o principal fator de risco.

O principal sinal é o surgimento de um nódulo (caroço) no pescoço, geralmente indolor e de crescimento progressivo.

Diagnóstico

Em geral, o nódulo cancerígeno é diagnosticado em exames de rotina, raramente alguém vai ao médico com suspeita de problema na tireoide, salvo em casos cujo paciente sente dificuldade para engolir, apresente rouquidão ou um aumento de volume na região cervical baixa, os quais podem ser sintomas de tumores mais volumosos na glândula.

O médico então fará um diagnóstico por meio da palpação da glândula (para constatar a presença de nódulos endurecidos) e pela ultrassonografia.

Somente a ultrassonografia não permite estabelecer a diferença entre o nódulo benigno e o maligno. Para confirmar o diagnóstico de nódulo maligno, é realizada a punção aspirativa por agulha fina (conhecida como PAAF) como exame complementar.

Na punção, a qual na maioria das vezes é guiada pela ultrassonografia, uma agulha bem fina é introduzida no nódulo e o conteúdo aspirado, analisado em laboratório de citopatologia. Se o resultado da punção mostrar alguma suspeita de câncer na tireóide, pode ser recomendada a cirurgia para retirada parcial ou completa da glândula. Em alguns casos, a punção pode não ser totalmente conclusiva, e a definição da melhor conduta deve ser adequada a cada caso específico, levando-se em conta a história clínica, os achados da ultrassonografia e a experiência da equipe médica.

Testes moleculares

Nestes casos em que a punção não chega a ser conclusiva e pode existir uma pequena chance do nódulo ser maligno, testes de expressão gênica e testes de mutações em alguns genes específicos podem ser realizados, na tentativa de se evitar cirurgias desnecessárias. Porém, a experiência com estes testes é muito preliminar, pois ainda faltam estudos de validação consistentes, não há evidência que os resultados serviriam para a população pediátrica e em nódulos menores (<1cm).

Gostaria de reforçar que o teste molecular é apenas mais uma das ferramentas que pode ser utilizada na avaliação dos pacientes com nódulos tireoidianos, em situações muito específicas. Ele pode complementar (e não substituir) as avaliações clínico-epidemiológicas, de imagem e a citopatologicas. Porém, os testes moleculares parecem promissores, e muitas pesquisas estão em andamento.

Tipos de Câncer de Tireoide

Os tipos mais comuns de câncer são os carcinomas papilífero e folicular, mas também existem o tipo medular e o anaplásico.

  • O carcinoma papilífero, predominante entre pessoas de 30 e 50 anos, representa cerca de 70% a 80% dos casos, com altas taxas de cura. É um tumor pouco agressivo, de evolução lenta. Na maioria das vezes, é diagnosticado num exame de rotina e reage muito bem ao tratamento.
    Quando ocorrem metástases, os gânglios linfáticos (linfonodos) da região do pescoço costumam ser os inicialmente afetados.

(Obs.: Quando as células cancerosas se disseminam pela corrente sanguínea e formam colônias em outros locais, nos pulmões por exemplo, estas colônias são chamadas metástases).

  • Já o carcinoma folicular, levemente mais agressivo que o anterior, atinge cerca de 10-20% dos casos. É o segundo tipo mais frequente, costuma manifestar-se depois dos 35 anos, principalmente em idosos e oferece risco maior de recidivas e metástases. Nos casos mais avançados, pulmões e ossos são os órgãos em que primeiro se disseminam as células tumorais.
  • O Carcinoma medular atinge as células parafoliculares, responsáveis pela produção do hormônio calcitonina, um dos reguladores do nível de cálcio no sangue. O carcinoma medular é mais agressivo, e pode estar relacionado com algumas síndromes genéticas. Responsável por aproximadamente 5% dos casos de câncer da tireoide.
  • Também chamado de indiferenciado, o carcinoma anaplásico, é muito raro (1% dos casos de tumores da tireoide). Porém, é o mais agressivo e tem crescimento rápido, em pouco tempo atinge órgãos à distância, como os pulmões, os ossos e o fígado. Manifesta-se principalmente em mulheres idosas e seu tratamento é o mais difícil.

Já sei que tenho câncer de tireoide. O que esperar sobre o meu tratamento?

Em todos os casos, após a detecção do câncer de tireoide, a solução é realizar uma cirurgia, chamada tireoidectomia, para a retirada da glândula tireoide e de eventuais linfonodos metastáticos na região cervical.

Após a intervenção cirúrgica, a depender dos achados intra-operatórios e do laudo final do patologista, nos pacientes com câncer papilífero ou folicular, pode ser necessária a complementação do tratamento com a realização de iodo-radioativo, com intuito de destruir eventuais células remanescentes na região cervical ou para o tratamento de possíveis metástases. A maioria dos pacientes com câncer papilífero ou folicular acaba realizando este tratamento complementar com iodo-radioativo, porém não são todos os pacientes com estes diagnósticos que precisam do iodo-radioativo.

Pacientes com câncer medular da tireóide não fazem tratamento complementar com iodo-radioativo, pois as células que originam estes tumores não captam iodo, o que é considerado como fator principal para que o tratamento seja efetivo. Nos casos de câncer medular que necessitam complementar o tratamento cirúrgico, o que geralmente ocorre quando o paciente apresenta doença mais avançada, a complementação é feita com a realização de radioterapia externa convencional.

Uma vez retirada a glândula, haverá a necessidade da reposiçnao com o hormônio tireoidiano, para substituir os hormônios naturais de tireoide que não poderão ser mais produzidos. Essa complementação é para a vida toda e cada paciente vai precisar de uma dose específica, ajustada para as suas necessidades individuais.