Se há cerca de 20-30 anos os registros de câncer de boca e garganta eram quase que exclusivamente entre pessoas acima dos 50 anos, atualmente, um dado chama a atenção dos oncologistas: cada vez mais jovens- adultos até 40 anos – têm apresentados tumores malignos nessas partes do corpo. “A média etária de pessoas com câncer nessas áreas tem caído. Hoje em dia, cerca de 30% dos casos de câncer de boca e orofaringe ocorrem em pessoas que não são tabagistas nem etilistas, e em idades mais precoces.

De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), os cânceres de cavidade oral e orofaríngeo estão entre os dez tipos de maior incidência em homens brasileiros. E, mesmo que o cigarro e o álcool ainda sejam suas principais causas, eles costumam exigir uma exposição prolongada para o desenvolvimento de um tumor – entre 15 e 30 anos de consumo.Por isso, um outro fator de risco tem sido considerado pelos pesquisadores: o papiloma vírus humano, popularmente conhecido como HPV, que potencialmente tem a capacidade de induzir o desenvolvimento de um câncer em menos tempo.

“Com a queda do consumo do tabaco, esperávamos diminuir a incidência e a mortalidade do câncer, mas houve uma mudança de perfil. Está caindo o número de cânceres relacionados ao tabaco, devido às campanhas de controle, mas estão aumentando os casos relacionados ao HPV.” Pesquisadores apontam que, até 2030, o número de casos relacionados ao vírus deve superar os casos ligados ao tabaco nos Estados Unidos.

Um estudo atual, feito com orientação da bióloga e geneticista do A.C. Camargo e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sílvia Regina Rogatto, aponta que em casos de câncer de amígdala a incidência do HPV cresceu de 25%, registrados há 20 anos, para 80%.

Em uma outra pesquisa, realizada no AC Camargo com a nossa participação, os médicos detectaram que 32% dos casos de câncer de boca em jovens adultos eram em portadores do vírus. Em pacientes acima de 50 anos, a presença do vírus foi detectada em apenas 8%.

Contaminação pelo HPV

O estudo feito por Silvia e sua equipe em pacientes do A. C. Camargo, na capital paulista, e no Hospital do Câncer de Barretos, no interior do Estado, descobriu que 80% dos pacientes da capital são positivos para a presença do vírus enquanto os voluntários de Barretos correspondem a 15%.

A prevalência da positividade do HPV em tumores de boca e garganta em grandes capitais é mais evidente, pois os hábitos costumam ser diferentes de cidades do interior. A maior parte dos casos, a transmissão do vírus é causada pelo ato sexual, principalmente pelo sexo oral. Mas essa maneira de transmissão não seria a única forma.

Estima-se que entre 25% e 50% das mulheres e 50% dos homens estejam infectados pelo HPV em todo mundo. Mas a maioria das infecções é transitória, sendo combatida espontaneamente pelo próprio sistema imune do indivíduo.
De acordo com pesquisas feitas entre homens norte-americanos, mexicanos e brasileiros, ao menos 2% da população adulta tem o vírus HPV e não apresenta nenhum sintoma.

Sintomas

Algumas pessoas podem apresentar papilomas (semelhantes a verrugas) que podem aparecer na garganta ou na boca, que poderiam ser induzidas pela infecção pelo HPV, as quais em alguns casos poderia evoluir para a formação de um câncer. Porém, na maioria das vezes, não há a ocorrência destas lesões. A maioria dos pacientes com cânceres de boca e garganta, induzidas pelo HPV, não apresentam lesões “pré-malignas”, surgindo a lesão cancerígena a partir da mucosa normal, sem necessariamente ter apresentado uma lesão pré-existente.

No geral, cânceres de boca e garganta podem apresentar os seguintes sintomas: ferida que não cicatriza, nódulo persistente e que aumenta de tamanho progressivamente, dor, dificuldade para mastigar, engasgos ao se alimentar, dor na língua e mau hálito persistente. Quanto mais precoce o diagnóstico, maior a chance de cura e de tratamentos menos agressivos, com menos sequelas.

Os tumores ligados ao HPV tem uma taxa de cura maior do que os associados a tabaco e ao álcool. São tumores de biologia menos agressiva, que respondem melhor ao tratamento, tanto com cirurgia, que geralmente é seguido de radioterapia, quanto na associação de radioterapia e quimioterapia.

Prevenção

A vacinação é a melhor forma de se prevenir. A vacinação confere imunização e deve ser realizada tanto em meninas como em meninos, de preferência antes de iniciarem a vida sexual.

Outras formas de prevenção são: sexo seguro (preservativos), tanto para relações sexuais vaginais quanto orais, ter uma alimentação balanceada, não fumar, não beber, boa higiene oral e evitar traumatismos (próteses mal ajustadas). Verduras e frutas, especialmente as cítricas, são protetoras.

Fazer o autoexame da boca com frequência também é importante. Analise a mucosa na bochecha, abaixo da língua, acima, e observe se há manchas avermelhadas e esbranquiçadas e/ou pequenos nódulos.